MEMÓRIAS DA MARIA M
Esta foi a publicação de uma estudante de Coimbra:
Esta foi a publicação de uma estudante de Coimbra:
Ela escreveu um livro de memórias. Memórias que começam na infância, dramática, como tinham de ser as da filha de pai pedófilo e de mãe que a olhava como se ela fosse lixo.
Eram assim os seus pais biológicos, disfuncionais, para usar um termo técnico: viam-na ambos como lixo, e diziam-lho… Porque sabiam que eles próprios eram lixo! E ela sofreu, sofreu muito, mas um dia encontrou os que chama seus pais de afeto e encorajou-se a registar o seu passado.
Hesitou em assumir que tudo aquilo era autobiográfico. Fingiu que era a história de uma amiga, entretanto falecida. Mas as marcas terríveis dessa infância paralisaram-na na adolescência e na juventude. Sofreu as marradas ou o cornejamento (bullying, dizem os que não querem traduzir o Inglês), de condiscípulos que troçavam da sua compreensível timidez. E já em plena juventude, até na escola de bombeiros que frequentava, ainda sofreu olhares oblíquos de colegas que não compreendiam a sua insegurança e não queriam ver a generosidade com que abraçara o lema que a encantou: “Vida por vida”.
Recordo uma frase que li quando eu próprio era adolescente: “O sofrimento é o verdadeiro curso superior da vida”. Não memorizei na altura o nome do seu autor. Penso que era uma citação de Manuel da Silva Gaio, mas passei a obra dele a pente fino e nunca a reencontrei, perguntei ao Google e não obtive resposta. Seja quem for que o tenha escrito, concordo inteiramente com o pensamento que exprime. Ela frequentou esse curso superior. E muita gente, com razões as mais diversas, também o frequentou. Eu também lá andei, embora com motivos total e absolutamente distintos. Só que me diplomei muito cedo; e ela não. Já jovem adulta, continuava a deixar-se dominar por estranhos complexos de tristeza e medo. Levou muito tempo a descobrir porque a atacavam, e que o intriguista, o maldizente, o acobardadito são sempre pessoas que se sentem falhadas. Não reparava que, como afirma um antigo provérbio, “o invejoso é aquele que se sente incapaz de competir com o invejado.”
Até que, finalmente, descobriu. E escreveu. E publicou. E quem ler o seu livro - sobretudo se o ler em algum período da vida em que se sinta cornejado - perceberá que tem de reagir e quanto mais cedo, melhor. É essa a mensagem, a lição, que nos traz a obra dela. Parabéns à autora.

