sábado, 14 de setembro de 2019

O CALÇADO DAS MULHERES



 CHINELAS versus SANDÁLIAS, SALTOS AGULHA versus TÉNIS


Arrasta, arrasta essas chinelas,

devagarinho e com preguiça.
Varre a cozinha e a despensa
e põe ao lume a hortaliça

Andas sempre de chinelas,
a correr, a chinelar…
Ouves o que o homem diz!
E como queres ser feliz,
fazes tudo o que ele mandar!

Estas mulheres de chinelas
são escravas dos seus maridos!
É espantoso! Ainda há,
no nosso tempo, mulheres
que revivem tempos idos!




Mulher de saltos de agulha?
Sonhou ser alta, é pequena…
e outra glória não quis!
É tipo “femme française,”
É cabide onde pendura
Toda a moda de Paris!

Se usas sandálias ou ténis,
És mulher que manda em tudo!
Teu homem é que é teu escravo!
Ai dele se não se comporta,
pois fará figura torta
qual palhaço no Entrudo!

Já não há mulheres descalças
E o calçado diz-me muito.
Mas valorizar mulheres,
Só pelo calçado, é pateta
E não foi esse o meu intuito!



quarta-feira, 20 de março de 2019

LIVROS


NOTA SOBRE “O LIVRO E OS SUPORTES DA ESCRITA”
(inspirada numa aula do Mestre José Alfaro, na UCP)



O livro terá sem dúvida nascido de uma mãe chamada escrita. E assim, nas civilizações mais antigas, o livro nasceu na pedra. Foi na pedra que se escreveu aquilo que não deveria ser esquecido; a informação que deveria ser preservada e transmitida não só aos contemporâneos mas especialmente aos vindouros. 
E havia, sim, uma vertente afectiva: era em geral uma homenagem aos heróis, aos reis, aos deuses que se respeitavam ou, pelo menos, se temiam, e também aos próprios antepassados que por certo se relembravam e se amavam.

É este duplo objectivo, o de preservar informação e o de manifestar sentimentos, que presidiu ao nascimento do que hoje consideramos serem os percursores do livro.

Pouco depois da pedra terá vindo a argila e a madeira, mais tarde ainda o papiro e o pergaminho. Cada vez com mais capacidade e cada vez com mais portabilidade – para usar um anglicismo criado na era digital. Mas também, menos durabilidade: se os registos nas pedras tumulares do Antigo Egipto ainda aí estão, quatro ou cinco milénios depois, o mesmo tempo não vão talvez durar os registos em papiro e pergaminho.

E mais recentemente veio o papel. Com ainda mais capacidade e portabilidade, com uma muito maior facilidade de utilização, mas, pelo menos quanto a alguns tipos, de mais rápida degradação e requerendo cuidados ainda mais especiais para ser conservado em bom estado. O livro que hoje manuseamos, com certo prazer e certo afecto como tenho ouvido testemunhar a muitas pessoas, permanece depositário das mesmas motivações dos suportes de escrita que foram seus percursores: nele se regista e guarda informação, por meio dele ela se transmite e sobretudo maciçamente se divulga. E é esta característica de utilização maciça que ajuda a distinguir o livro de hoje: associado a técnicas cada vez mais eficazes e económicas de produção e reprodução, o livro conseguiu chegar a um número crescente de pessoas.

E o futuro? Estamos a entrar numa nova época no que diz respeito ao tratamento da informação. A era do digital vai certamente levar-nos a manusear informação sobretudo através dessa via, a do digital! É um começo de milénio sob a égide do zero (0) e do um (1), os únicos símbolos de que precisamos para armazenar e transmitir toda a informação de que dispomos hoje e de que viremos a dispor no futuro! Os matemáticos que “se divertiram” no passado a teorizar sobre estas propriedades do zero e do um, sem que pudessem exibir na altura qualquer utilização para tais teorias, por certo nunca imaginaram como a nossa civilização delas depende!

Com as novas tecnologias digitais, a capacidade de lidar com enormes volumes de informação aumentou espantosamente. Há hoje temas em quase todas as áreas científicas e tecnológicas que não podem restringir-se ao suporte de papel. Exemplos? Em Matemática, o famoso número  Pi  é conhecido com uns três biliões de algarismos: admitindo que uma página de texto contém 3000 caracteres, para registar Pi em papel seriam precisos mil livros com mil páginas cada um… e quem é que os compraria? Mas se o número Pi com todos estes dígitos será, para o cidadão comum, de muito pouca importância, o mesmo não se dirá da muito falada descodificação do genoma humano, que leva ao estudo de sequências de símbolos igualmente longas e tem a ver com a eficácia futura da Medicina… e mais não é preciso dizer. Mas se quisermos um exemplo que até aos mais saudáveis interessa, pensemos nas listas telefónicas – por quanto tempo ainda alguns operadores, mas já não todos, as fornecerão impressas em papel? E não gostaríamos nós de trazer no bolso, nestes tempos de globalização, uma lista mundial de telefones e telemóveis? Ou, mais prosaicamente, um guia das ruas, instituições, monumentos, espectáculos, de todas as cidades do Mundo ou, pelo menos, daquela em que nos encontramos no momento? E, para os que investem nos mercados financeiros, uma lista de cotações das acções de todas as empresas listadas em todas as bolsas, diariamente actualizada?… É claro que isto não é possível em papel: é-o já hoje em suporte digital e acoplado a sistemas de telecomunicações, tal como o livro em papel tem estado, em certo sentido, acoplado às tecnologias de impressão.

Já é tecnicamente possível e creio que em breve todos o faremos: ligar um pequeno aparelho portátil de navegação (talvez o próprio telemóvel) que, por exemplo, dentro da nossa cidade, nos diz, com erro inferior a uns poucos metros, a nossa posição; depois ditar o endereço para onde queremos ir e receber no monitor instruções para nos podermos dirigir para lá. Catálogos e guias turísticos em papel anualmente ou mensalmente actualizados tornar-se-ão coisas do passado, economicamente inviáveis, e serão sem dúvida substituídos por versões em suporte digital.

Mas será que o livro de papel vai acabar? Não o creio. É que ainda nem sequer os registos em pedra acabaram! Se é já possível ter chips incrustados nos edifícios onde se registará o nome da rua e o número da porta e trazer no bolso um leitor que os descodifica (é um sistema de um tipo que todos conhecemos, o da Via Verde!) a verdade é que continuamos a escrever na pedra essa informação: o nome da rua, o número da porta e até o nome de alguns edifícios! E é nos mais luxuosos e modernos – pasme-se – que esse hábito se perpetua! Quando se substituirá por um minúsculo chip a inscrição em letras garrafais do nome de um grande banco, de uma grande seguradora ou de um caríssimo condomínio? E, não gostando embora de falar em temas tristes, quando deixaremos de ver, nas campas e jazigos dos cemitérios, as homenagens de saudade à “mãe extremosa” ou ao “esposo amantíssimo” inscritas em mármore, e passaremos a lê-las codificadas num chip?

Ora se até na pedra continuamos a escrever, como vamos acreditar que o papel será abandonado?

Mas há muito mais que se lhe diga! Para não ficarmos demasiado entusiasmados com as maravilhas do digital, não quero deixar de assinalar um terrível inconveniente que ele tem: é que não pode ser lido sem intervenção de equipamentos. E esse é o grande problema: é que os equipamentos estão em rápida evolução e tornam-se, de um ano para o outro, obsoletos. Em consequência há registos em suporte digital para os quais já não se encontra no mercado equipamento que os possa ler. Este problema não é despiciendo. A prestigiada revista The Economist referia, no seu suplemento Technology Quarterly na semana de 17-23 Setembro 2005, esta verdadeira mas pouco reconhecida ameaça aos documentos em suporte digital: “o desaparecimento de computadores capazes de os ler” (the disappearance of computers able to read them). Menciona casos em que isto já aconteceu e cita a principal responsável pela preservação de documentos digitais da Biblioteca Nacional Holandesa, Hilde van Wijngaarden, que diz: “É um problema dos grandes, mas é notável como é tão pouco conhecido” (It is a major problem, but it is remarkable how little known it is). E o artigo termina afirmando: “Funestamente, alguns dados científicos da década de 1970 já se esboroaram em bits digitais impossíveis de ler” (Ominously, some scientific data from the 1970s has already crumbled into unreadable digital bits). Um aspecto que não tem qualquer relevância quando se trate de informação a utilizar durante um curto período de tempo ao fim do qual pode ser descartada, mas que é altamente significativo, no caso contrário.

Concluo convicto que não acabará tão depressa a escrita na pedra e no papel. Coexistirá com a escrita nas tabuinhas nanoquadriculadas (que, na verdade, é o que os chips são!)… no ciberespaço… e até no vento… para evocar por um lado os pouco românticos mas muito espectaculares hologramas publicitários e por outro um fado célebre (“Saudade vai-te embora do meu peito… / ficou escrita no vento esta paixão…”) e o título de um filme clássico americano que foi um grande sucesso: Escrito no Vento (Written on the Wind, no original em língua inglesa), com Rock Hudson, Lauren Bacall e Robert Stack nos principais papéis, e realizado por Douglas Sirk, em 1956. Passaram quase 50 anos! Era ainda muito pequeno o grupo de especialistas que tinham descoberto a utilidade de algumas teorias matemáticas abstractas das quais nasceu a maior e mais abrangente revolução da História: a que foi desencadeada pelo protagonismo do zero e do um…

Lisboa, 2005-12-03
© J. M. S. Simões Pereira