NOTA
SOBRE “O LIVRO E OS SUPORTES DA ESCRITA”
(inspirada numa aula
do Mestre José Alfaro, na UCP)
O livro terá sem dúvida nascido de uma mãe chamada escrita. E assim, nas
civilizações mais antigas, o livro nasceu na pedra. Foi na pedra que se
escreveu aquilo que não deveria ser esquecido; a informação que deveria ser
preservada e transmitida não só aos contemporâneos mas especialmente aos
vindouros.
E havia, sim, uma vertente afectiva: era em geral uma homenagem aos heróis,
aos reis, aos deuses que se respeitavam ou, pelo menos, se temiam, e também aos
próprios antepassados que por certo se relembravam e se amavam.
É este duplo objectivo, o de preservar
informação e o de manifestar sentimentos, que presidiu ao nascimento do que
hoje consideramos serem os percursores do livro.
Pouco depois da pedra terá vindo a argila e a
madeira, mais tarde ainda o papiro e o pergaminho. Cada vez com mais capacidade
e cada vez com mais portabilidade – para usar um anglicismo criado na era
digital. Mas também, menos durabilidade: se os registos nas pedras tumulares do
Antigo Egipto ainda aí estão, quatro ou cinco milénios depois, o mesmo tempo não
vão talvez durar os registos em papiro e pergaminho.
E mais recentemente veio o papel. Com ainda
mais capacidade e portabilidade, com uma muito maior facilidade de utilização, mas,
pelo menos quanto a alguns tipos, de mais rápida degradação e requerendo
cuidados ainda mais especiais para ser conservado em bom estado. O livro que
hoje manuseamos, com certo prazer e certo afecto como tenho ouvido testemunhar
a muitas pessoas, permanece depositário das mesmas motivações dos suportes de
escrita que foram seus percursores: nele se regista e guarda informação, por
meio dele ela se transmite e sobretudo maciçamente se divulga. E é esta característica
de utilização maciça que ajuda a distinguir o livro de hoje: associado a
técnicas cada vez mais eficazes e económicas de produção e reprodução, o livro
conseguiu chegar a um número crescente de pessoas.
E o futuro? Estamos a entrar numa nova época
no que diz respeito ao tratamento da informação. A era do digital vai
certamente levar-nos a manusear informação sobretudo através dessa via, a do
digital! É um começo de milénio sob a égide do zero (0) e do um (1), os únicos
símbolos de que precisamos para armazenar e transmitir toda a informação de que
dispomos hoje e de que viremos a dispor no futuro! Os matemáticos que “se
divertiram” no passado a teorizar sobre estas propriedades do zero e do um, sem
que pudessem exibir na altura qualquer utilização para tais teorias, por certo
nunca imaginaram como a nossa civilização delas depende!
Com as novas tecnologias digitais, a
capacidade de lidar com enormes volumes de informação aumentou espantosamente.
Há hoje temas em quase todas as áreas científicas e tecnológicas que não podem
restringir-se ao suporte de papel. Exemplos? Em Matemática, o famoso número Pi é
conhecido com uns três biliões de algarismos: admitindo que uma página de texto
contém 3000 caracteres, para registar Pi em papel seriam precisos mil livros
com mil páginas cada um… e quem é que os compraria? Mas se o número Pi com
todos estes dígitos será, para o cidadão comum, de muito pouca importância, o
mesmo não se dirá da muito falada descodificação do genoma humano, que leva ao
estudo de sequências de símbolos igualmente longas e tem a ver com a eficácia
futura da Medicina… e mais não é preciso dizer. Mas se quisermos um exemplo que
até aos mais saudáveis interessa, pensemos nas listas telefónicas – por quanto
tempo ainda alguns operadores, mas já não todos, as fornecerão impressas em
papel? E não gostaríamos nós de trazer no bolso, nestes tempos de globalização,
uma lista mundial de telefones e telemóveis? Ou, mais prosaicamente, um guia das
ruas, instituições, monumentos, espectáculos, de todas as cidades do Mundo ou,
pelo menos, daquela em que nos encontramos no momento? E, para os que investem
nos mercados financeiros, uma lista de cotações das acções de todas as empresas
listadas em todas as bolsas, diariamente actualizada?… É claro que isto não é
possível em papel: é-o já hoje em suporte digital e acoplado a sistemas de
telecomunicações, tal como o livro em papel tem estado, em certo sentido, acoplado
às tecnologias de impressão.
Já é tecnicamente possível e creio que em
breve todos o faremos: ligar um pequeno aparelho portátil de navegação (talvez
o próprio telemóvel) que, por exemplo, dentro da nossa cidade, nos diz, com
erro inferior a uns poucos metros, a nossa posição; depois ditar o endereço
para onde queremos ir e receber no monitor instruções para nos podermos dirigir
para lá. Catálogos e guias turísticos em papel anualmente ou mensalmente actualizados
tornar-se-ão coisas do passado, economicamente inviáveis, e serão sem dúvida
substituídos por versões em suporte digital.
Mas será que o livro de papel vai acabar? Não
o creio. É que ainda nem sequer os registos em pedra acabaram! Se é já possível
ter chips incrustados nos edifícios
onde se registará o nome da rua e o número da porta e trazer no bolso um leitor
que os descodifica (é um sistema de um tipo que todos conhecemos, o da Via
Verde!) a verdade é que continuamos a escrever na pedra essa informação: o nome
da rua, o número da porta e até o nome de alguns edifícios! E é nos mais
luxuosos e modernos – pasme-se – que esse hábito se perpetua! Quando se
substituirá por um minúsculo chip a
inscrição em letras garrafais do nome de um grande banco, de uma grande
seguradora ou de um caríssimo condomínio? E, não gostando embora de falar em
temas tristes, quando deixaremos de ver, nas campas e jazigos dos cemitérios,
as homenagens de saudade à “mãe extremosa” ou ao “esposo amantíssimo” inscritas
em mármore, e passaremos a lê-las codificadas num chip?
Ora se até na pedra continuamos a escrever,
como vamos acreditar que o papel será abandonado?
Mas há muito mais que se lhe diga! Para não ficarmos
demasiado entusiasmados com as maravilhas do digital, não quero deixar de
assinalar um terrível inconveniente que ele tem: é que não pode ser lido sem
intervenção de equipamentos. E esse é o grande problema: é que os equipamentos
estão em rápida evolução e tornam-se, de um ano para o outro, obsoletos. Em
consequência há registos em suporte digital para os quais já não se encontra no
mercado equipamento que os possa ler. Este problema não é despiciendo. A
prestigiada revista The Economist referia,
no seu suplemento Technology Quarterly
na semana de 17-23 Setembro 2005, esta verdadeira mas pouco reconhecida ameaça
aos documentos em suporte digital: “o desaparecimento de computadores capazes
de os ler” (the disappearance of
computers able to read them). Menciona casos em que isto já aconteceu e
cita a principal responsável pela preservação de documentos digitais da
Biblioteca Nacional Holandesa, Hilde van Wijngaarden, que diz: “É um problema
dos grandes, mas é notável como é tão pouco conhecido” (It is a major problem, but it is remarkable how little known it is).
E o artigo termina afirmando: “Funestamente, alguns dados científicos da década
de 1970 já se esboroaram em bits digitais impossíveis de ler” (Ominously, some scientific data from the
1970s has already crumbled into unreadable digital bits). Um aspecto que
não tem qualquer relevância quando se trate de informação a utilizar durante um
curto período de tempo ao fim do qual pode ser descartada, mas que é altamente
significativo, no caso contrário.
Concluo convicto que não acabará tão depressa
a escrita na pedra e no papel. Coexistirá com a escrita nas tabuinhas nanoquadriculadas (que, na
verdade, é o que os chips são!)… no ciberespaço…
e até no vento… para evocar por um lado os pouco românticos mas muito
espectaculares hologramas publicitários e por outro um fado célebre (“Saudade
vai-te embora do meu peito… / ficou escrita no vento esta paixão…”) e o título
de um filme clássico americano que foi um grande sucesso: Escrito no Vento (Written on
the Wind, no original em língua inglesa), com Rock Hudson, Lauren Bacall e
Robert Stack nos principais papéis, e realizado por Douglas Sirk, em 1956. Passaram quase 50 anos! Era ainda muito pequeno o
grupo de especialistas que tinham descoberto a utilidade de algumas teorias
matemáticas abstractas das quais nasceu a maior e mais abrangente revolução da
História: a que foi desencadeada pelo protagonismo do zero e do um…
Lisboa, 2005-12-03
© J. M. S. Simões Pereira

